Tudo tem um fim

DesatinosMay 10, 2006 2:16 pm

Com um balde de praia empenho-me furiosamente na tarefa de tentar vazar a água que em turbilhão entra no barco. Parece-me que as probabilidades de evitar o naufrágio são baixas.

Numa de poeta vadioApril 17, 2006 9:26 pm

Hoje
Não me contem histórias de encantar
Fábulas de príncipes e princesas
Sapos
Finais felizes estilo Hollywood
Pobres que casam com ricos
E felizes para sempre ficam
Não me contem histórias de
Miseráveis felizes
Putas que se regeneram
Bandidos generosos
Felicidade self-service aqui à mão de semear.

Hoje
Prefiro que me falem a verdade
Que me digam que sapos não viram príncipes
Pelo beijo e graça de uma princesa
Que os finais são infelizes
Que os miseráveis serão sempre miseráveis
Porcos, sujos, com fome
Que as putas serão sempre putas
Mesmo que não o queiram ser
Que não há bandidos generosos
E que os piores deles todos
São aqueles que o parecem.

Hoje
Prefiro encarar o mundo de frente
E consciente que a felicidade
Não se serve no Mcdonalds
Dentro de um pão de plástico
Prefiro ter presente
Que a felicidade é bem de luxo
Só acessível a alguns privilegiados.

DevaneiosApril 11, 2006 8:50 pm

Primeiro ouvi a tua voz e foi surpresa e calor e carícia em mim. Uma sensação já esquecida despertou naquela estranha tarde. E a tua voz começou a acordar e a adormecer comigo.
Depois chamaste-me. E mesmo de longe, quando te vi soube que te conhecia e que sempre tinhas estado comigo. E quando me aproximei pressentiste-me e viraste-te sorrindo. Então vi os teus olhos, ai os teus olhos que foram primeiro surpresa e depois atracção, fascínio e nos quais me perco. Sorri-te então também e fomos e falámos da vida, das perdas, do amor e naturalmente as mãos foram-se tocando e os corpos conhecendo-se.
Quando nos encontrámos naquele lugar singular onde os olhos se enchem de azul o que era já certeza confirmou-se e ao escurecer os elementos juntaram chuva e nevoeiro para criar um lugar mágico só nosso. E o teu corpo, a tua pele, a tua entrega foram surpresa e prazer e amor. E nada mais existiu senão nós os dois, ali só um, ilha no meio da noite, da chuva e do nevoeiro.

DevaneiosApril 9, 2006 10:59 pm

Ah… Como eu gosto do início da Primavera! Esta época magnífica em que começo a ter de usar capacete de protecção para não perder de vez as (poucas) ideias que ainda tenho na caixa craniana devido aos sucessivos choques contra postes de iluminação e outros obstáculos colocados propositadamente pelos autarcas deste país no meio dos passeios das nossas cidades. E de quem é a culpa disto? Delas, pois claro, desta mania que elas têm de se começar a despir mal o mercúrio sobe um bocadinho nos termómetros. Ah as camisas…as blusas…os vestidos transparentes e os outros vaporosos que um golpe de vento levanta… Ai os golpes de vento e as pernas que se descobrem, as saias que quase não o são, e os decotes…ai os decotes e os seios que se adivinham, os soutiens transparentes, os soutiens inexistentes… as calças justinhas, os umbigos à mostra… Ah como eu gosto desta época depois do Inverno em que nada se mostra e nada se vê, como gosto da Primavera em que até a vista se limpa com tais maravilhas.

DevaneiosApril 7, 2006 9:05 am

Queria entrar com o pé direito “para dar sorte”. Enganou-se, trocou os pés e o primeiro a entrar foi o esquerdo.
Queria parecer saber perfeitamente para onde ia, como se já ali estivesse há meses, mas com o nervosismo esqueceu-se do andar e teve de perguntar a um paquete em que andar ficava a administração.
Queria mostrar-se distante e importante mas quando viu as pernas traçadas da secretária do administrador e o decote generosíssimo, ou melhor o que este deixava ver, ficou com o olhar preso e, vermelho que nem um tição, balbuciou para a rapariga uma série de palavras desconexas e ela ficou a olhá-lo como que pensando se ele seria um atrasado mental.
Queria aparentar ser uma pessoa segura de si, que não se intimidava perante situações difíceis, mas quando entrou no gabinete e viu que o homem que estava sentado atrás da secretária nem levantara os olhos dos papéis, ficou parado, especado à porta do gabinete sem saber o que fazer até o outro lhe perguntar do que é que estava à espera para entrar e se sentar.
Queria demonstrar ter conhecimento, real, da área de trabalho a que se candidatava mas com o nervosismo esqueceu-se e não conseguiu dar sequer uma resposta às poucas perguntas que o administrador lhe fez.
Queria ter mostrado dignidade depois do rotundo não recebido mas tropeçou no tapete da saída desequilibrou-se e caiu para cima da secretária de mini-saia curtíssima e decote generoso que vinha a entrar no gabinete do administrador.
Ficou deitado em cima dela e perante tal situação, normalmente embaraçosa, algo nele mudou, gritou bem alto “me Tarzan, you Jane”, rasgou decote e mini-saia e agarrando na rapariga que gritava desesperada correu pelo corredor emitindo estranhos gritos e num salto acrobático, ele Tarzan e ela Jane voaram pela janela aberta do décimo quinto andar do edifício.

DevaneiosApril 5, 2006 12:38 pm

Agastado com a forma como o jogo estava a decorrer para a sua equipa, farto de assobiar e insultar o árbitro, os jogadores, o treinador, os adjuntos do treinador, o presidente do clube, o restante elenco directivo, as famílias de todos, levantou-se do lugar cativo, desceu as escadas que conduziam ao relvado, conseguiu iludir a segurança e entrou no campo.
Investiu furiosamente contra o jogador que tinha a bola e com violência tirou-lha. O árbitro marcou falta, levantou o cartão amarelo, depois o vermelho, apitou até ficar roxo sem fôlego mas ele não ligou e continuou a correr driblando todos quantos lhe apareciam pela frente – os jogadores adversários, os da sua equipa, auxiliares do árbitro, seguranças, polícias, dirigentes.
Já na área, fintou o guarda-redes e ele e bola entraram pela baliza dentro chocando violentamente com as redes do fundo. Caiu inanimado devido ao embate e ao violento esforço que tinha feito.
Quando acordou tinha a seu lado o presidente do clube e o treinador que, entusiasmados, o anunciavam aos microfones do estádio como o reforço surpresa para a equipa que há meses andavam a prometer.

DesatinosApril 3, 2006 2:11 pm

Há dias em que o telemóvel, normalmente bicho irritante que teima em incomodar repetidamente sem respeito pelo momento, pelo local, pela minha calma, entra em greve – talvez como vingança pelos frequentes insultos que lhe faço – e não me diz nada. E escolhe-os a dedo, com precisão. São precisamente aqueles em que eu preciso que ele fale comigo, que me chame.

DevaneiosApril 2, 2006 7:34 pm

Fechou a porta, acendeu o cigarro e começou a descer as escadas. Não acendeu a luz apesar da obscuridade do fim de tarde do dia de Inverno. Há quarenta anos que as utilizava, sabia de cor o número de degraus e a distância que os separava e podia descê-las e subi-las de olhos fechados.
Alguém abriu a porta de entrada lá em baixo, também não acendeu a luz, e começou a subir as escadas. Quando chegou ao segundo andar viu os vultos que lentamente se iam aproximando, parou, encostou-se à porta do segundo esquerdo porque as escadas eram estreitas e dificilmente davam passagem a duas pessoas em simultâneo e essa era uma situação que não queria enfrentar.
O vulto da frente parou também a poucos degraus do local onde estava, a cabeça um pouco inclinada para baixo como que a olhar para um ponto entre a mão dele e o chão. O que vinha atrás parou também e nenhum disse uma palavra.
O pensamento dele corria imaginando já os piores cenários e as pulsações subiram rapidamente. A situação durou alguns segundos/horas.
O vulto da frente subiu os degraus que faltavam, ergueu a perna e começou a pisar violentamente o tapete da entrada do segundo esquerdo. Ele assustado, espantado acendeu a luz à sua frente estava a vizinha, velhota meia cega e meia surda que esbaforida lhe disse – Ai desculpe, estava a ver o brilho da ponta do cigarro e pareceu-me que estava caído em cima do tapete. Nem o tinha visto! - Atrás o marido ria às gargalhadas.

DevaneiosApril 1, 2006 11:11 am

Entraram no primeiro comboio da madrugada e nenhum tinha bilhete, como habitualmente. Formavam um grupo grande, cerca de vinte adolescentes, tinham passado a noite de Santo António em Alfama, apinhada de gente, correndo todas as “capelinhas”, que à data eram quase porta sim porta não, bebendo “copos de três” e, para ensopar, comendo algumas sardinhas e chouriço assado. Pelo meio tinham passado por alguns bailaricos e arranjado confusão com alguns(mas) turistas que se passeavam pelas festas. Uma noite de santos populares perfeitamente normal, portanto.
No Cais do Sodré ocuparam uma carruagem inteira do comboio deitando-se nos bancos. Conforme era esperado o revisor ou o “pica” como era chamado não teve coragem para entrar e pedir os bilhetes. Muito menos para os meter na ordem.
Em Alcântara entrou na carruagem um grupo de estivadores que tinham acabado o turno. Quiseram sentar-se. O álcool inibia o discernimento dos adolescentes e não conseguiam perceber que não tinham quaisquer hipóteses contra aqueles homens habituados a trabalho pesado, duro e a rixas constantes. Continuaram deitados nos bancos desdenhando dos pedidos/ordens que lhes eram dados pelos estivadores. Inevitavelmente a violência estalou apesar dos esforços de um dos homens para que isso não acontecesse. No meio da confusão um dos estivadores sacou da navalha e esfaqueou o Pedro que tombou de imediato sangrando abundantemente.
O homem da estiva que tinha tentado impedir a violência gritou desesperado – Parem, eles são meus amigos! Só nessa altura os adolescentes notaram que no meio dos homens se encontrava o Luís, pouco mais velho do que eles, habitual companheiro de noites como aquela, e que há pouco tempo tinha começado a trabalhar no porto de Lisboa.

O Pedro teve alta do hospital algum tempo mais tarde. Conseguiu safar-se. Mas aquela noite ficou para sempre marcada no seu corpo.

Numa de poeta vadioMarch 30, 2006 7:27 pm

Da minha janela
Nas árvores que renascem
Vejo belas flores primaveris
Que me tentam enganar.
Querem convencer-me
Que a vida também pode ser bela.
Estão ali sim, mas não existem.
Estão apenas na realidade
Da minha janela
Do visor da minha máquina
Do monitor do meu computador.
Representações.
Não há lugar na minha realidade
Para belas flores
Por isso tento capturá-las
Com a objectiva da minha máquina.
Para que no meu mundo,
Por trás da câmara,
Exista beleza e flores
Em árvores que renascem primaveris.

Numa de poeta vadioMarch 29, 2006 7:41 pm

Carta fora do baralho
Peça a mais no tabuleiro
Personagem no filme errado
Penetra na festa de terceiros
Grão de areia na engrenagem
Desenraizado do meu próprio chão
Estranho numa terra estranha
Eis onde estou
Eis o que na verdade sou.

Lugares comuns 10:51 am

A "Carta Geographica de Portugal" que tenho na parede está torta. Sempre me incomodaram os quadros que não estão direitos e alinhados. Já perdi a conta às vezes que endireitei a Carta mas ela, teimosa, volta sempre à posição inicial, torta. Suspeito que o problema não está na "Carta Geographica" mas no "de Portugal".

Muro das lamentaçõesMarch 28, 2006 3:54 pm

 

 

 

 

 

 

 

Lembras-te quando te dizia que quando fosses eu queria ir contigo? E que subiríamos ao céu no fumo duma barca a arder rio abaixo? Tu foste e eu, cobarde, não te acompanhei. Desculpa-me.

Numa de poeta vadioMarch 27, 2006 11:28 am

Eu sei!!! Escusam de o dizer!
Estou
Descontrolado
Desiludido
Desanimado
Destruído
Descomposto
Despassarado
Desnorteado
Descompensado
Desarvorado
Descomedido
Desequilibrado
Desenganado
Decepcionado
Desalinhado
Desarranjado.
Mas é assim que estou!
E perdoem-me, mas hoje
Mando tudo à merda
Porque eu sou o que sou
E o que escrevo é só meu.

Numa de poeta vadio 11:26 am

Tem dias em que melhor seria não acordar.
Não recomeçar a merda da vida
Que nos lixa e que nos desilude
Que nos faz tomar consciência
De coisas que metemos para baixo da carpete
Na esperança que num passe de magia
Elas não tenham existência
Sejam só fruto da nossa imaginação.
Mas a vida é mesmo puta
E descarada, levanta o tapete
E a merda escondida, esquecida,
Aparece ali à nossa vista, nojenta, bem real.
Tem dias em que melhor seria não acordar
E levar connosco a vida sacana que nos mata.

Cenas tristesMarch 26, 2006 11:24 am

Comprou-lhe o vestido preto, sexy, lindo, que tinha visto numa loja fina de Lisboa, com o dinheiro que não podia gastar. Ela tinha um corpo magnífico que o vestido ia realçar e torná-la deslumbrante e todos os olhares se iam fixar nela quando entrasse no baile. Preferiu nem pensar como iria viver o resto do mês, sabia que ela ia gostar e isso chegava.
Deu-lho pouco antes do dia do baile num fim duma tarde de verão, de amor perfeito, de corpos suados e pediu-lhe para não o experimentar ali porque só a queria ver, linda, no baile.
E ela esteve maravilhosa e todos os olhares de todos os homens se fixaram nela e a desejaram enquanto dançava com o marido nessa noite em que ele não arranjou coragem para sair de casa.

Numa de poeta vadioMarch 22, 2006 11:21 am

Nem sempre ACORDO com vontade de escrever.
E nesses dias em que fico seco de palavras
Em que parece que ADORMEÇO o sentir
É CONTIGO que sonho de olhos abertos.
E NO sonhar consigo sempre reencontrar
O fio do PENSAMENTO donde brotam as palavras perdidas.

Numa de poeta vadioMarch 21, 2006 11:20 am

Num dia estou de tempestade
E sou vento forte sem direcção
E chuva e relâmpago e trovão.
No outro estou de bonança
Sou brisa em dia de Primavera
E trago em mim a luz suave
Desse tempo de renascimento.

Contudo olha-me bem!
Chuva
Ciclone
Trovão
Relâmpago
Sol
Calor
Brisa
Todos estão dentro de mim
E no entanto sou sempre o mesmo!

(inspirado em Fernando Pessoa)

Numa de poeta vadioMarch 20, 2006 11:18 am

Quando fixo os meus olhos baços
Nos teus tão cheios de lua,
Há uma ternura que me preenche
Há um amor que não controlo.
E há um desejo que não contenho,
Há uma fome que me domina,
E que me faz perder a cabeça
Quando olhares e corpos se juntam
E nos amamos até à exaustão.

A mim, tão controlado e tão distante.

Desatinos 11:11 am

O kief vinha de Marrocos, ali bem perto, e era distribuído quer pelos pescadores quer pelos magalas do quartel da cidade. Barato e de boa qualidade. Já tinha fumado algumas vezes em Lisboa mas apenas algumas passas de charros divididos entre muitos. Ali era diferente. O preço e a abundância permitiam que cada um fumasse o que quisesse. E fumaram. Muito. Sentindo-se bem lá no alto, seguiram para o “Convívio”, bar onde cumpriam o ritual nocturno de despejar litros de cerveja, conversar e namorar ao som da boa música escolhida pelo Jorge, o disc-jockey de serviço. Não chegou a beber meia girafa. Levantou-se e dirigiu-se apressado para a casa de banho com a sensação de estar dentro dum carrossel descontrolado. Completamente agoniado. Abriu a porta, entrou.
Deve ter sido do cheiro – dizia uma voz indignada, a primeira que ouviu quando acordou – esta casa de banho tem um cheiro horrível.