Entraram no primeiro comboio da madrugada e nenhum tinha bilhete, como habitualmente. Formavam um grupo grande, cerca de vinte adolescentes, tinham passado a noite de Santo António em Alfama, apinhada de gente, correndo todas as “capelinhas”, que à data eram quase porta sim porta não, bebendo “copos de três” e, para ensopar, comendo algumas sardinhas e chouriço assado. Pelo meio tinham passado por alguns bailaricos e arranjado confusão com alguns(mas) turistas que se passeavam pelas festas. Uma noite de santos populares perfeitamente normal, portanto.
No Cais do Sodré ocuparam uma carruagem inteira do comboio deitando-se nos bancos. Conforme era esperado o revisor ou o “pica” como era chamado não teve coragem para entrar e pedir os bilhetes. Muito menos para os meter na ordem.
Em Alcântara entrou na carruagem um grupo de estivadores que tinham acabado o turno. Quiseram sentar-se. O álcool inibia o discernimento dos adolescentes e não conseguiam perceber que não tinham quaisquer hipóteses contra aqueles homens habituados a trabalho pesado, duro e a rixas constantes. Continuaram deitados nos bancos desdenhando dos pedidos/ordens que lhes eram dados pelos estivadores. Inevitavelmente a violência estalou apesar dos esforços de um dos homens para que isso não acontecesse. No meio da confusão um dos estivadores sacou da navalha e esfaqueou o Pedro que tombou de imediato sangrando abundantemente.
O homem da estiva que tinha tentado impedir a violência gritou desesperado – Parem, eles são meus amigos! Só nessa altura os adolescentes notaram que no meio dos homens se encontrava o Luís, pouco mais velho do que eles, habitual companheiro de noites como aquela, e que há pouco tempo tinha começado a trabalhar no porto de Lisboa.

O Pedro teve alta do hospital algum tempo mais tarde. Conseguiu safar-se. Mas aquela noite ficou para sempre marcada no seu corpo.