Fechou a porta, acendeu o cigarro e começou a descer as escadas. Não acendeu a luz apesar da obscuridade do fim de tarde do dia de Inverno. Há quarenta anos que as utilizava, sabia de cor o número de degraus e a distância que os separava e podia descê-las e subi-las de olhos fechados.
Alguém abriu a porta de entrada lá em baixo, também não acendeu a luz, e começou a subir as escadas. Quando chegou ao segundo andar viu os vultos que lentamente se iam aproximando, parou, encostou-se à porta do segundo esquerdo porque as escadas eram estreitas e dificilmente davam passagem a duas pessoas em simultâneo e essa era uma situação que não queria enfrentar.
O vulto da frente parou também a poucos degraus do local onde estava, a cabeça um pouco inclinada para baixo como que a olhar para um ponto entre a mão dele e o chão. O que vinha atrás parou também e nenhum disse uma palavra.
O pensamento dele corria imaginando já os piores cenários e as pulsações subiram rapidamente. A situação durou alguns segundos/horas.
O vulto da frente subiu os degraus que faltavam, ergueu a perna e começou a pisar violentamente o tapete da entrada do segundo esquerdo. Ele assustado, espantado acendeu a luz à sua frente estava a vizinha, velhota meia cega e meia surda que esbaforida lhe disse – Ai desculpe, estava a ver o brilho da ponta do cigarro e pareceu-me que estava caído em cima do tapete. Nem o tinha visto! - Atrás o marido ria às gargalhadas.