Tudo tem um fim

Cenas tristesMarch 26, 2006 11:24 am

Comprou-lhe o vestido preto, sexy, lindo, que tinha visto numa loja fina de Lisboa, com o dinheiro que não podia gastar. Ela tinha um corpo magnífico que o vestido ia realçar e torná-la deslumbrante e todos os olhares se iam fixar nela quando entrasse no baile. Preferiu nem pensar como iria viver o resto do mês, sabia que ela ia gostar e isso chegava.
Deu-lho pouco antes do dia do baile num fim duma tarde de verão, de amor perfeito, de corpos suados e pediu-lhe para não o experimentar ali porque só a queria ver, linda, no baile.
E ela esteve maravilhosa e todos os olhares de todos os homens se fixaram nela e a desejaram enquanto dançava com o marido nessa noite em que ele não arranjou coragem para sair de casa.

Cenas tristesMarch 19, 2006 11:16 am

Não sei o que é que aconteceu mas foram eles de certeza! – exclamou o guarda Xavier quando os viu entrar pela esquadra dentro devidamente enquadrados pela, à data, polícia de choque.
Estava-se antes do 25 de Abril e o clube de hóquei em patins da vila era um dos melhores. Mas nessa noite tinha perdido em casa com o Benfica. Obviamente por culpa do árbitro… À saída do ringue alguns simpatizantes apedrejaram o autocarro vermelho e, pouco tempo depois, apareceu a polícia de choque. Estávamos no período em que era moda nas manifestações estudantis arrancar pedras da calçada e tentar alvejar com elas a dita polícia ensaiando de seguida uma fuga em que se conseguiam bater recordes de atletismo fossem eles de curta distância, meio fundo ou até fundo. Penso aliás que se tivessem sido cronometrados e homologados ainda hoje teríamos os recordes do mundo nessas disciplinas.
Foi evidentemente o que se fez. Calçada desfeita e chuva de pedrada dirigida aos policias que ficavam sem mossa nenhuma bem defendidos que estavam pelos escudos e pela distância que mantinham antes de carregarem. Acabadas as salvas de boas pedras de calçada e sem mais a nada à mão para arremessar a polícia avançou. E o pessoal todo fugiu, como é bom de ver. Tudo disperso em pequenos grupos e uma fuga realizada a boa velocidade. Mas, espertos os tipos, tinham-nos cercado na outra extremidade da rua. A única solução que restou foi fugir para dentro do restaurante à beira-mar, aliás o nosso local de estudo preferido, apinhado de gente nessas noites de verão. Sem lugar para nos sentarmos e tentar passar despercebidos, entrámos pelas casas de banho dentro. Surpresa! Não é que os sacanas entraram também pelo restaurante dentro e foram buscar-nos às instalações sanitárias? Não é coisa que se faça… Conhecidos pela maioria daquela gente que estava no restaurante lá saímos, envergonhados, bem agarrados pelos nossos acompanhantes não desejados.
E lá fomos parar à esquadra, local de que éramos visitantes frequentes, e ao dito guarda Xavier, que nos adorava, e que, está bom de ver, antes de nos mandar em paz (a amizade era forte…) se encarregou de nos deixar umas lembranças no corpo para que não esquecêssemos aquela derrota do nosso clube.

Cenas tristesMarch 10, 2006 10:39 am

Na fila do Multibanco, a mulher, já quarentona e com um corpo muito bem feito, usava uma mini-saia daquelas que já não se vêm. Ele, mesmo atrás, tirou o telemóvel do bolso e disfarçadamente ligou a câmara fingindo que estava a ver uma qualquer mensagem. Ia dar uma boa foto – o corpo dela, o Multibanco no fundo e a iluminação fria do local. CLICK!!!… «Porra, o som!», pensou. «As minhas pernas, ficaram bem na foto?» perguntou ela voltando-se para trás.