Com um balde de praia empenho-me furiosamente na tarefa de tentar vazar a água que em turbilhão entra no barco. Parece-me que as probabilidades de evitar o naufrágio são baixas.
Há dias em que o telemóvel, normalmente bicho irritante que teima em incomodar repetidamente sem respeito pelo momento, pelo local, pela minha calma, entra em greve – talvez como vingança pelos frequentes insultos que lhe faço – e não me diz nada. E escolhe-os a dedo, com precisão. São precisamente aqueles em que eu preciso que ele fale comigo, que me chame.
O kief vinha de Marrocos, ali bem perto, e era distribuído quer pelos pescadores quer pelos magalas do quartel da cidade. Barato e de boa qualidade. Já tinha fumado algumas vezes em Lisboa mas apenas algumas passas de charros divididos entre muitos. Ali era diferente. O preço e a abundância permitiam que cada um fumasse o que quisesse. E fumaram. Muito. Sentindo-se bem lá no alto, seguiram para o “Convívio”, bar onde cumpriam o ritual nocturno de despejar litros de cerveja, conversar e namorar ao som da boa música escolhida pelo Jorge, o disc-jockey de serviço. Não chegou a beber meia girafa. Levantou-se e dirigiu-se apressado para a casa de banho com a sensação de estar dentro dum carrossel descontrolado. Completamente agoniado. Abriu a porta, entrou.
Deve ter sido do cheiro – dizia uma voz indignada, a primeira que ouviu quando acordou – esta casa de banho tem um cheiro horrível.
Nunca fui equilibrado. Expludo em fúria, raiva e, de seguida, sou capaz de ser mar calmo, plano, sem ondas. Fico deprimido e, no momento imediato, torno-me eufórico, invadido de felicidade. Sou assim. Sem meios termos embora, aparentemente, seja calmo, ponderado. E estou velho demais para mudar.
O poço surge de repente. Não sei como aparece. Não sei porque aparece. Sei que está ali, à minha frente. De novo. O vórtice no seu interior atrai-me. Caio e começo a rodopiar cada vez mais rapidamente para a escuridão. Tento resistir, agarrar-me a qualquer coisa que me permita voltar à luz que ainda consigo ver. Cada vez mais distante. Raspo aqui e ali, as mãos ficam manchadas do sangue que sai das feridas. O sangue alastra pelos braços, pelo corpo, quase me impede de ver. Embato no fundo, no escuro, violentamente. Derrotado, mais uma vez.
Sei que me vou levantar, que vou trepar a pulso as paredes do poço. De novo. E que vou conseguir chegar mais uma vez ao pontinho de luz que vejo lá em cima. Quebrado, ensanguentado mas vivo. Mas preciso de descansar um pouco. Parar. Ganhar forças. E tapar os ouvidos para não escutar os vultos que me repetem incessantemente que não vale a pena o esforço.
