Tudo tem um fim

DesatinosMay 10, 2006 2:16 pm

Com um balde de praia empenho-me furiosamente na tarefa de tentar vazar a água que em turbilhão entra no barco. Parece-me que as probabilidades de evitar o naufrágio são baixas.

DesatinosApril 3, 2006 2:11 pm

Há dias em que o telemóvel, normalmente bicho irritante que teima em incomodar repetidamente sem respeito pelo momento, pelo local, pela minha calma, entra em greve – talvez como vingança pelos frequentes insultos que lhe faço – e não me diz nada. E escolhe-os a dedo, com precisão. São precisamente aqueles em que eu preciso que ele fale comigo, que me chame.

DesatinosMarch 20, 2006 11:11 am

O kief vinha de Marrocos, ali bem perto, e era distribuído quer pelos pescadores quer pelos magalas do quartel da cidade. Barato e de boa qualidade. Já tinha fumado algumas vezes em Lisboa mas apenas algumas passas de charros divididos entre muitos. Ali era diferente. O preço e a abundância permitiam que cada um fumasse o que quisesse. E fumaram. Muito. Sentindo-se bem lá no alto, seguiram para o “Convívio”, bar onde cumpriam o ritual nocturno de despejar litros de cerveja, conversar e namorar ao som da boa música escolhida pelo Jorge, o disc-jockey de serviço. Não chegou a beber meia girafa. Levantou-se e dirigiu-se apressado para a casa de banho com a sensação de estar dentro dum carrossel descontrolado. Completamente agoniado. Abriu a porta, entrou.
Deve ter sido do cheiro – dizia uma voz indignada, a primeira que ouviu quando acordou – esta casa de banho tem um cheiro horrível.

DesatinosMarch 18, 2006 11:14 am

Nunca fui equilibrado. Expludo em fúria, raiva e, de seguida, sou capaz de ser mar calmo, plano, sem ondas. Fico deprimido e, no momento imediato, torno-me eufórico, invadido de felicidade. Sou assim. Sem meios termos embora, aparentemente, seja calmo, ponderado. E estou velho demais para mudar.

DesatinosMarch 15, 2006 10:54 am

O poço surge de repente. Não sei como aparece. Não sei porque aparece. Sei que está ali, à minha frente. De novo. O vórtice no seu interior atrai-me. Caio e começo a rodopiar cada vez mais rapidamente para a escuridão. Tento resistir, agarrar-me a qualquer coisa que me permita voltar à luz que ainda consigo ver. Cada vez mais distante. Raspo aqui e ali, as mãos ficam manchadas do sangue que sai das feridas. O sangue alastra pelos braços, pelo corpo, quase me impede de ver. Embato no fundo, no escuro, violentamente. Derrotado, mais uma vez.
Sei que me vou levantar, que vou trepar a pulso as paredes do poço. De novo. E que vou conseguir chegar mais uma vez ao pontinho de luz que vejo lá em cima. Quebrado, ensanguentado mas vivo. Mas preciso de descansar um pouco. Parar. Ganhar forças. E tapar os ouvidos para não escutar os vultos que me repetem incessantemente que não vale a pena o esforço.