Tudo tem um fim

DevaneiosApril 11, 2006 8:50 pm

Primeiro ouvi a tua voz e foi surpresa e calor e carícia em mim. Uma sensação já esquecida despertou naquela estranha tarde. E a tua voz começou a acordar e a adormecer comigo.
Depois chamaste-me. E mesmo de longe, quando te vi soube que te conhecia e que sempre tinhas estado comigo. E quando me aproximei pressentiste-me e viraste-te sorrindo. Então vi os teus olhos, ai os teus olhos que foram primeiro surpresa e depois atracção, fascínio e nos quais me perco. Sorri-te então também e fomos e falámos da vida, das perdas, do amor e naturalmente as mãos foram-se tocando e os corpos conhecendo-se.
Quando nos encontrámos naquele lugar singular onde os olhos se enchem de azul o que era já certeza confirmou-se e ao escurecer os elementos juntaram chuva e nevoeiro para criar um lugar mágico só nosso. E o teu corpo, a tua pele, a tua entrega foram surpresa e prazer e amor. E nada mais existiu senão nós os dois, ali só um, ilha no meio da noite, da chuva e do nevoeiro.

DevaneiosApril 9, 2006 10:59 pm

Ah… Como eu gosto do início da Primavera! Esta época magnífica em que começo a ter de usar capacete de protecção para não perder de vez as (poucas) ideias que ainda tenho na caixa craniana devido aos sucessivos choques contra postes de iluminação e outros obstáculos colocados propositadamente pelos autarcas deste país no meio dos passeios das nossas cidades. E de quem é a culpa disto? Delas, pois claro, desta mania que elas têm de se começar a despir mal o mercúrio sobe um bocadinho nos termómetros. Ah as camisas…as blusas…os vestidos transparentes e os outros vaporosos que um golpe de vento levanta… Ai os golpes de vento e as pernas que se descobrem, as saias que quase não o são, e os decotes…ai os decotes e os seios que se adivinham, os soutiens transparentes, os soutiens inexistentes… as calças justinhas, os umbigos à mostra… Ah como eu gosto desta época depois do Inverno em que nada se mostra e nada se vê, como gosto da Primavera em que até a vista se limpa com tais maravilhas.

DevaneiosApril 7, 2006 9:05 am

Queria entrar com o pé direito “para dar sorte”. Enganou-se, trocou os pés e o primeiro a entrar foi o esquerdo.
Queria parecer saber perfeitamente para onde ia, como se já ali estivesse há meses, mas com o nervosismo esqueceu-se do andar e teve de perguntar a um paquete em que andar ficava a administração.
Queria mostrar-se distante e importante mas quando viu as pernas traçadas da secretária do administrador e o decote generosíssimo, ou melhor o que este deixava ver, ficou com o olhar preso e, vermelho que nem um tição, balbuciou para a rapariga uma série de palavras desconexas e ela ficou a olhá-lo como que pensando se ele seria um atrasado mental.
Queria aparentar ser uma pessoa segura de si, que não se intimidava perante situações difíceis, mas quando entrou no gabinete e viu que o homem que estava sentado atrás da secretária nem levantara os olhos dos papéis, ficou parado, especado à porta do gabinete sem saber o que fazer até o outro lhe perguntar do que é que estava à espera para entrar e se sentar.
Queria demonstrar ter conhecimento, real, da área de trabalho a que se candidatava mas com o nervosismo esqueceu-se e não conseguiu dar sequer uma resposta às poucas perguntas que o administrador lhe fez.
Queria ter mostrado dignidade depois do rotundo não recebido mas tropeçou no tapete da saída desequilibrou-se e caiu para cima da secretária de mini-saia curtíssima e decote generoso que vinha a entrar no gabinete do administrador.
Ficou deitado em cima dela e perante tal situação, normalmente embaraçosa, algo nele mudou, gritou bem alto “me Tarzan, you Jane”, rasgou decote e mini-saia e agarrando na rapariga que gritava desesperada correu pelo corredor emitindo estranhos gritos e num salto acrobático, ele Tarzan e ela Jane voaram pela janela aberta do décimo quinto andar do edifício.

DevaneiosApril 5, 2006 12:38 pm

Agastado com a forma como o jogo estava a decorrer para a sua equipa, farto de assobiar e insultar o árbitro, os jogadores, o treinador, os adjuntos do treinador, o presidente do clube, o restante elenco directivo, as famílias de todos, levantou-se do lugar cativo, desceu as escadas que conduziam ao relvado, conseguiu iludir a segurança e entrou no campo.
Investiu furiosamente contra o jogador que tinha a bola e com violência tirou-lha. O árbitro marcou falta, levantou o cartão amarelo, depois o vermelho, apitou até ficar roxo sem fôlego mas ele não ligou e continuou a correr driblando todos quantos lhe apareciam pela frente – os jogadores adversários, os da sua equipa, auxiliares do árbitro, seguranças, polícias, dirigentes.
Já na área, fintou o guarda-redes e ele e bola entraram pela baliza dentro chocando violentamente com as redes do fundo. Caiu inanimado devido ao embate e ao violento esforço que tinha feito.
Quando acordou tinha a seu lado o presidente do clube e o treinador que, entusiasmados, o anunciavam aos microfones do estádio como o reforço surpresa para a equipa que há meses andavam a prometer.

DevaneiosApril 2, 2006 7:34 pm

Fechou a porta, acendeu o cigarro e começou a descer as escadas. Não acendeu a luz apesar da obscuridade do fim de tarde do dia de Inverno. Há quarenta anos que as utilizava, sabia de cor o número de degraus e a distância que os separava e podia descê-las e subi-las de olhos fechados.
Alguém abriu a porta de entrada lá em baixo, também não acendeu a luz, e começou a subir as escadas. Quando chegou ao segundo andar viu os vultos que lentamente se iam aproximando, parou, encostou-se à porta do segundo esquerdo porque as escadas eram estreitas e dificilmente davam passagem a duas pessoas em simultâneo e essa era uma situação que não queria enfrentar.
O vulto da frente parou também a poucos degraus do local onde estava, a cabeça um pouco inclinada para baixo como que a olhar para um ponto entre a mão dele e o chão. O que vinha atrás parou também e nenhum disse uma palavra.
O pensamento dele corria imaginando já os piores cenários e as pulsações subiram rapidamente. A situação durou alguns segundos/horas.
O vulto da frente subiu os degraus que faltavam, ergueu a perna e começou a pisar violentamente o tapete da entrada do segundo esquerdo. Ele assustado, espantado acendeu a luz à sua frente estava a vizinha, velhota meia cega e meia surda que esbaforida lhe disse – Ai desculpe, estava a ver o brilho da ponta do cigarro e pareceu-me que estava caído em cima do tapete. Nem o tinha visto! - Atrás o marido ria às gargalhadas.

DevaneiosApril 1, 2006 11:11 am

Entraram no primeiro comboio da madrugada e nenhum tinha bilhete, como habitualmente. Formavam um grupo grande, cerca de vinte adolescentes, tinham passado a noite de Santo António em Alfama, apinhada de gente, correndo todas as “capelinhas”, que à data eram quase porta sim porta não, bebendo “copos de três” e, para ensopar, comendo algumas sardinhas e chouriço assado. Pelo meio tinham passado por alguns bailaricos e arranjado confusão com alguns(mas) turistas que se passeavam pelas festas. Uma noite de santos populares perfeitamente normal, portanto.
No Cais do Sodré ocuparam uma carruagem inteira do comboio deitando-se nos bancos. Conforme era esperado o revisor ou o “pica” como era chamado não teve coragem para entrar e pedir os bilhetes. Muito menos para os meter na ordem.
Em Alcântara entrou na carruagem um grupo de estivadores que tinham acabado o turno. Quiseram sentar-se. O álcool inibia o discernimento dos adolescentes e não conseguiam perceber que não tinham quaisquer hipóteses contra aqueles homens habituados a trabalho pesado, duro e a rixas constantes. Continuaram deitados nos bancos desdenhando dos pedidos/ordens que lhes eram dados pelos estivadores. Inevitavelmente a violência estalou apesar dos esforços de um dos homens para que isso não acontecesse. No meio da confusão um dos estivadores sacou da navalha e esfaqueou o Pedro que tombou de imediato sangrando abundantemente.
O homem da estiva que tinha tentado impedir a violência gritou desesperado – Parem, eles são meus amigos! Só nessa altura os adolescentes notaram que no meio dos homens se encontrava o Luís, pouco mais velho do que eles, habitual companheiro de noites como aquela, e que há pouco tempo tinha começado a trabalhar no porto de Lisboa.

O Pedro teve alta do hospital algum tempo mais tarde. Conseguiu safar-se. Mas aquela noite ficou para sempre marcada no seu corpo.

DevaneiosMarch 19, 2006 11:08 am

Vamos pela ponte que é mais rápido – disse o Ricardo. Os outros concordaram. Ele ficou aflito. Tinha vertigens. Entrava em pânico total. Ainda os tentou convencer a dar a volta por baixo mas ninguém o ouviu. Para não ficar mal visto perante os amigos, para não parecer um “maricas”, foi também. Noite escura, entraram pela linha do comboio e seguiram em direcção à ponte. Já a tinha passado outras vezes durante o dia. Sempre para não ser gozado pelos amigos. Sabia que tinha uma passadeira estreita em tábuas de madeira, muitas delas partidas, e apenas um arame para se segurar. E o vazio, que o atraía de modo quase irresistível, visível entre as tábuas da linha do caminho de ferro e do lado de fora da ponte. Entraram na passadeira. Ele atrás de todos. Aterrorizado. Um dos amigos caminhava no meio da linha saltando de tábua em tábua. Ele arrastava-se, quase paralisado. Tentava olhar em frente. Fugir ao vazio em baixo. Apareceu uma luz na curva que antecedia a ponte. Um comboio. Sabia que o comboio passava tão rente à passadeira que se tinha que encostar às barras metálicas laterais e agarrar-se ao arame para não se desequilibrar com a deslocação do ar. Encostou-se, tentou segurar-se. Na escuridão a mão falhou o arame. Caiu para trás para o vazio que o esperava.

DevaneiosMarch 17, 2006 11:12 am

Gosto de dias de chuva. Não me lavam, não me limpam a alma. Esse é um benefício da chuva que apenas é concedido a alguns poetas. Mas estão mais de acordo comigo. Sombrios e ventosos. Sinto-me bem nestes dias em que de dentro da minha concha com janelas absorvo o cinzento que me chega da natureza.

Devaneios 10:59 am

Sentado no carro olho as luzes da cidade espalhadas pelas gotas de água que escorrem nos vidros.
Ligo o aquecimento, procuro uma estação de rádio. Música melancólica. Oceano Pacífico. Apropriado.
A noite vai ser longa e o dia foi cansativo.
"As noites longas do Oceano Pacífico".Dizem.
A música, o ruído de fundo da chuva e o cansaço levam-me para um espaço entre o sonho e a realidade.
Nele quero estar.
É nele que tu existes. Entre o sonho e a realidade.
Desde sempre foi aí que te encontrei.
Nele crescemos juntos, brincámos, nele nos amamos, nele vivemos como criaturas de luz que somos.
Sabemos que o tempo é curto. Apenas existe naqueles minutos entre a realidade e o sonho.
Sei que estás, como eu, nos outros espaços.
Mas neles não nos (re)conhecemos.
E ansiamos esse pequeno espaço de tempo em que, de facto, estamos vivos.
O tempo começa a esgotar-se. Luto contra o sono, luto contra o despertar.
Não quero a separação.
O barulho de pancadas fortes e um coro de buzinas sobressaltam-me:
Acorde, gritam-me de fora do carro, o sinal está verde, porra !
Você está a empatar o trânsito!

DevaneiosMarch 8, 2006 10:31 am

Dos dias que passam vão sobrando horas inúteis, desaproveitadas. Horas em que a inércia se sobrepõe à urgência de viver. Penso por vezes, que, no fim, me vão fazer falta. Sei que vou pensar nelas e lamentar não as ter usado ao máximo. No limite. Tanta coisa que vai ficar por fazer, tudo o que não vou conhecer e aprender, amor que deixo por fazer em camas intactas de espera. Mas depois… Depois penso melhor e deixo-me de merdas de filosofias baratas, viro-me para o outro lado, e durmo mais um bocado no conforto da minha cama/casulo.

DevaneiosMarch 6, 2006 11:03 am

Ó Doutor – não valia a pena explicar-lhe pela milésima vez que não era Doutor nem nada que se parecesse - eu não me esqueci de si. Venha atrás de mim - e o Jorge lá seguia à frente do carro meio a correr meio a tropeçar (àquela hora da manhã ainda conseguia fazer uma imitação de corrida) até ao lugar de estacionamento tapado com caixotes de lixo que invariavelmente me reservava. Mesmo ao lado da Telepizza, recordo bem. Saía do carro e o bom do Jorge vinha sempre conversando comigo até chegarmos ao café onde eu tentava acordar com uma italiana bem tirada mas não sem lhe dar antes a tal ajudinha para comprar comida que depois deixou de ser comida e passou a ser a dose que necessitava desde que lhe disse que se me continuasse a aldrabar não lhe dava mais nada. Quando queria mesmo comer ia comigo ao café e pagava-lhe o que queria. A conversa repetia-se sempre que tinha de sair com o carro ou ao fim do dia quando me vinha embora. Quando ele estava em condições de dizer alguma coisa, claro.

Das primeiras vezes que vi o Jorge, lá da janela do meu gabinete, espantava-me por ele não ter ainda sido atropelado. Quando estava pedrado punha-se quase no meio da estrada, dobrado, com uma das pernas meio no ar. E assim ficava a balouçar. Despertou-me a curiosidade e depois de me ter arranjado lugar algumas vezes pedi-lhe para me começar a “reservar” um para quando chegava de manhã cedo. Entre os dois foi-se cimentando algo semelhante a uma amizade, que me custou uns largos milhares de escudos, e o Jorge ganhou confiança suficiente para me ir contando boa parte da sua vida e, inclusivamente, me querer oferecer um casaco tipo marinheiro com botões dourados e, aí aceitei, um espelho retrovisor para o meu carro. Entre o que me disse e o que pessoas que o conheciam desde que ele ali tinha aparecido me contaram fiquei a saber que tinha sido comando e quando ali chegou era alto e entroncado. Quando o conheci era o contrário disto. Aparentemente baixo talvez devido a andar sempre curvado, muito magro, cabelos e barba compridos sujos e emaranhados, vestes que sempre me deram ideia que ficavam de pé quando as despia, tudo complementado por um cheiro nauseabundo. “Vivia” num carro abandonado e estava sempre por ali excepto quando se deslocava para os lados do Alto de S. João para se “abastecer”. Era casado e tinha dois filhos. Mostrou-me a fotografia deles diversas vezes. Há anos que não os via e acreditem ou não os olhos brilhavam-lhe um pouco mais quando falava deles. Ia com frequência ao hospital porque tinha graves problemas de saúde e segundo me contava e até me mostrava papeladas a consultas para iniciar “em breve” uma desintoxicação. A médica até já tinha tratado com o centro para onde iria. Um dia o Jorge apareceu-me com uns papéis da médica, uma espécie de guia de marcha para um centro de desintoxicação em Espanha e um bilhete de comboio já comprado para a viagem. Pediu-me uma ajuda para comer e eu dei-lhe a ajuda e mais o meu número de telemóvel para que ele me ligasse quando acabasse a desintoxicação e voltasse. A combinação era irmos ali ao lado à Portugália comer um bife daqueles bem mergulhados em molho.

Passaram uns anos e nunca mais soube nada do Jorge. Mas gosto de pensar que um dia o telemóvel vai tocar a marcar um encontro na Portugália.