
Lembras-te quando te dizia que quando fosses eu queria ir contigo? E que subiríamos ao céu no fumo duma barca a arder rio abaixo? Tu foste e eu, cobarde, não te acompanhei. Desculpa-me.

Lembras-te quando te dizia que quando fosses eu queria ir contigo? E que subiríamos ao céu no fumo duma barca a arder rio abaixo? Tu foste e eu, cobarde, não te acompanhei. Desculpa-me.
Escrevo de um tempo em que no acordar me retemperava e ganhava a vontade de enfrentar o dia. Escrevo de um tempo em que os dias eram de descoberta, de esperança. Escrevo de um tempo em que as semanas se dividiam entre dias de paraíso e dias de espera impaciente. Escrevo de um tempo em que o adormecer era suave entrada em sono tranquilo. Escrevo de dias, de semanas, de meses que me puseram um sorriso estúpido na face.
Os tempos mudaram, a vida impôs-se de novo e colocou-me no meu lugar. O sorriso desapareceu; o genuíno porque para quem me olha ainda há sempre aquele esgar com que minto e me mascaro.
Saio de mim. Olho-me, barco. Vejo-me passado, rastos, dor, amor, ódio, guerra, paz (pouca), cais de partida. Vejo-me presente, ruínas, decadência, amor, ódio, cansaço, incerteza, mar de tormenta. Não avisto futuro, espera-me desconhecido cais de chegada.