Tudo tem um fim

Numa de poeta vadioApril 17, 2006 9:26 pm

Hoje
Não me contem histórias de encantar
Fábulas de príncipes e princesas
Sapos
Finais felizes estilo Hollywood
Pobres que casam com ricos
E felizes para sempre ficam
Não me contem histórias de
Miseráveis felizes
Putas que se regeneram
Bandidos generosos
Felicidade self-service aqui à mão de semear.

Hoje
Prefiro que me falem a verdade
Que me digam que sapos não viram príncipes
Pelo beijo e graça de uma princesa
Que os finais são infelizes
Que os miseráveis serão sempre miseráveis
Porcos, sujos, com fome
Que as putas serão sempre putas
Mesmo que não o queiram ser
Que não há bandidos generosos
E que os piores deles todos
São aqueles que o parecem.

Hoje
Prefiro encarar o mundo de frente
E consciente que a felicidade
Não se serve no Mcdonalds
Dentro de um pão de plástico
Prefiro ter presente
Que a felicidade é bem de luxo
Só acessível a alguns privilegiados.

Numa de poeta vadioMarch 30, 2006 7:27 pm

Da minha janela
Nas árvores que renascem
Vejo belas flores primaveris
Que me tentam enganar.
Querem convencer-me
Que a vida também pode ser bela.
Estão ali sim, mas não existem.
Estão apenas na realidade
Da minha janela
Do visor da minha máquina
Do monitor do meu computador.
Representações.
Não há lugar na minha realidade
Para belas flores
Por isso tento capturá-las
Com a objectiva da minha máquina.
Para que no meu mundo,
Por trás da câmara,
Exista beleza e flores
Em árvores que renascem primaveris.

Numa de poeta vadioMarch 29, 2006 7:41 pm

Carta fora do baralho
Peça a mais no tabuleiro
Personagem no filme errado
Penetra na festa de terceiros
Grão de areia na engrenagem
Desenraizado do meu próprio chão
Estranho numa terra estranha
Eis onde estou
Eis o que na verdade sou.

Numa de poeta vadioMarch 27, 2006 11:28 am

Eu sei!!! Escusam de o dizer!
Estou
Descontrolado
Desiludido
Desanimado
Destruído
Descomposto
Despassarado
Desnorteado
Descompensado
Desarvorado
Descomedido
Desequilibrado
Desenganado
Decepcionado
Desalinhado
Desarranjado.
Mas é assim que estou!
E perdoem-me, mas hoje
Mando tudo à merda
Porque eu sou o que sou
E o que escrevo é só meu.

Numa de poeta vadio 11:26 am

Tem dias em que melhor seria não acordar.
Não recomeçar a merda da vida
Que nos lixa e que nos desilude
Que nos faz tomar consciência
De coisas que metemos para baixo da carpete
Na esperança que num passe de magia
Elas não tenham existência
Sejam só fruto da nossa imaginação.
Mas a vida é mesmo puta
E descarada, levanta o tapete
E a merda escondida, esquecida,
Aparece ali à nossa vista, nojenta, bem real.
Tem dias em que melhor seria não acordar
E levar connosco a vida sacana que nos mata.

Numa de poeta vadioMarch 22, 2006 11:21 am

Nem sempre ACORDO com vontade de escrever.
E nesses dias em que fico seco de palavras
Em que parece que ADORMEÇO o sentir
É CONTIGO que sonho de olhos abertos.
E NO sonhar consigo sempre reencontrar
O fio do PENSAMENTO donde brotam as palavras perdidas.

Numa de poeta vadioMarch 21, 2006 11:20 am

Num dia estou de tempestade
E sou vento forte sem direcção
E chuva e relâmpago e trovão.
No outro estou de bonança
Sou brisa em dia de Primavera
E trago em mim a luz suave
Desse tempo de renascimento.

Contudo olha-me bem!
Chuva
Ciclone
Trovão
Relâmpago
Sol
Calor
Brisa
Todos estão dentro de mim
E no entanto sou sempre o mesmo!

(inspirado em Fernando Pessoa)

Numa de poeta vadioMarch 20, 2006 11:18 am

Quando fixo os meus olhos baços
Nos teus tão cheios de lua,
Há uma ternura que me preenche
Há um amor que não controlo.
E há um desejo que não contenho,
Há uma fome que me domina,
E que me faz perder a cabeça
Quando olhares e corpos se juntam
E nos amamos até à exaustão.

A mim, tão controlado e tão distante.

Numa de poeta vadioMarch 16, 2006 10:56 am

Recordo Verões quentes
Na terra ao sul da minha juventude.
Viagens intermináveis
Alentejo abrasador
Serra de enjoo
O carro impossível de tão cheio.
A alegria de ser o primeiro a ver o mar.
O prazer de chegar
À minha terra ao sul.
Recordo
Casas brancas, telhados vermelhos, terraços
Amigos de verão, paixões de férias
Dias enormes, areias escaldantes
E um mar calmo e morno.
Noites quentes, música e cerveja
Corpos suados de paixão.
Madrugadas de traineiras
E ver o sol nascer
Deitados nas redes do cais.
Recordo desse tempo
A felicidade que nunca voltei a sentir.

Que saudades da minha terra ao sul!

(A Tavira, a minha terra ao sul)

Numa de poeta vadioMarch 9, 2006 10:51 am

Como um escorpião
Ameaçado de morte
Anestesio-me.
Injecto na minha mente
As doses exactas de escuridão
De pena de mim próprio
De desistência.
Preparo-me para o fim já anunciado.
Quero já lá estar quando ele chegar.
Nessa altura, na hora exacta do fim,
Olharei directo os olhos cheios de lua,
E direi – amo-te, valeu a pena.